Exposição “O Centro é azul” – Erika Malzoni

O centro é azul – Erika Malzoni

1 [coletar, acumular, misturar ]

Parte significativa das nossas interações com o mundo são enunciadas por momentos como aqueles em que somos impelidos a responder a unívoca pergunta: “CPF na nota?”. Neste caso, apenas duas possibilidades de réplica, claras, concisas, sem margem de erro ou interpretação.

É possível também considerar que lidamos com as coisas que nos cercam, nossos objetos, delegando a eles atribuições invariáveis, seguindo a mesma lógica imediatista de uma resposta automática “sim”, “não”. Consumimos o que o regime capitalista e a dinâmica de mercado nos exigem produzir e descartamos tudo na mesma velocidade, como se fugíssemos do tédio resultante do uso uniforme e previsível que damos às coisas.

O descarte vira retrato da soma inquietante daquilo que não desejamos ter e, ao mesmo tempo, do que somos, cumprindo um percurso mais enigmático do que alusivo para o esclarecimento de uma suposta auto crítica reflexiva de quem somos como sociedade.

Mas, e se fosse possível interromper por alguns instantes esta dinâmica? Tomando o tempo para enxergar nas coisas outros espaços, ou nos espaços, outras coisas. (Curioso como a ordem das palavras, neste caso, só reforça a ideia).

Retirar as coisas do mundo de suas funções originais, dar a elas novo circuito e, assim, significados variados é uma estratégia presente nas artes e um recurso bastante utilizado pelos artistas que subvertem práticas, hábitos e modos de ver e estar com a realidade, como faz Erika Malzoni. Junto de seus trabalhos, abrimos diálogos não mecânicos com objetos simples como gravatas, sacos plásticos, redes, notas fiscais, tecidos, molduras esquecidas na história. A partir deles, vamos aprendendo a deixar o sentido das coisas em aberto, que é justamente o que torna viáveis novas relações com o mundo ou uma exposição como esta e, em perspectiva, a própria ideia de arte.

2 [deambular, encontrar, conectar]

Os artistas mais implicados no seu fazer são também os mais assombrados por seu material, por suas manias, seus processos, metodologias e obsessões. Quando uma delas é deambular pela cidade, temos um caso específico de um gesto que, não apenas delineia uma prática artística de observação da paisagem, mas contribui para criar o que se vê e se percebe desde o ato de caminhar.

Produzir arte a partir disso tem um pouco da hipótese intrigante de que caminhar é tentar descobrir aquilo que encontraríamos se caminhássemos. Menos um jogo de palavras do que a provocação que se fazem alguns artistas dia a dia. Como uma meditação ativa em busca de um pensamento mais livre, ou ainda melhor neste caso, não pavimentado sobre as coisas do mundo.

Nesta deambulação não se sabe propriamente o que se procura, mas se reconhece quando se encontra, seja em uma caçamba, uma loja de armarinhos ou na casa de um amigo. Gravatas, sacos plásticos, redes, notas fiscais, molduras esquecidas na história versam sobre um azul rítmico na paisagem. A cor é encontrada não porque é perseguida, senão porque está sendo sustentada por um pensar que habita, antes, o próprio corpo da artista e que se desdobra nas reflexões sobre o tempo, o uso dos objetos, os excessos da vida contemporânea. Nesta experiência, pensar é residir as questões, fazer delas morada para, então, criar para o trabalho um chão (ainda que provisório) e para as ideias um mundo (ainda que perecível).

3 [O centro é azul]

Uma coleção de bandeirolas em tons azuis variados são também sacolas plásticas. O Rio Aqueronte que margeia o inferno de Dante é todo feito de gravatas. Os galões de água secos são mini esculturas de tempos em que a crise hídrica assolava a cidade. Uma moldura antiga de Di Cavalcanti coberta por uma rede não é mais uma simples moldura antiga.

Uma versão da história dos homens pode ser contada pela lida com seus objetos, ou, sob a ótica do trabalho de Erika Malzoni, por um corpo a corpo com cada um deles. Por isso, não se trata de pensar exclusivamente o que são, que materiais os constituem, mas o que, a partir de sua justaposição, associação, costura possam representar em termos de diálogo com o mundo.

Texto de Juliana Biscalquin

 

 

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