Exposição “DO LADO DE CÁ, DO LADO DE LÁ” – Eugênia França

As pinturas apresentadas na mostra “Do lado de cá, do lado de lá” de Eugênia França estabelecem uma densa poética a partir de um mergulho em um inventário de imagens de bonecas velhas e de crianças posando com seus brinquedos. A prévia sensação positiva e saudosista que temos ao pensarmos nos arquétipos de imagens infantis e mesmo nas aconchegantes memórias que guardamos de nossos brinquedos é bruscamente afrontada pela maneira como a artista faz uso dessas imagens em suas pinturas.

Eugênia apresenta um lado obscuro de uma infância corrompida e dilacerada. As crianças retratadas recebem um tratamento pictórico dramático que nos leva a pensar sobre uma gama de problemas sociais que corriqueiramente optamos por não enxergar, como exclusão social, violência, abandono e exploração sexual infantil.

Especificamente na série que deu nome à exposição a artista reaproveita como suporte para as pinturas, retalhos de lonas de caminhão usadas, que simbolicamente pretendem remeter ao grave problema do abuso sexual infantil corrente à margem das nossas estradas. Impossível não pensarmos ainda na relação de objetificação da criança uma vez que no tratamento das pinturas a artista cria uma estranha equivalência e indefinição entre o modo como representa as meninas e as bonecas.

As pinturas de Eugênia França escancaram com crueza o peso das memórias caladas. A superfície pictórica é áspera e a paleta de cores utilizada muito pouco escapa dos tons maculados do suporte. Os recortes e remendos aparentes das lonas se confundem com as imagens das crianças como se fossem suturas em seus corpos. Sinistros testemunhos da usura do tempo e da permanência do trauma como imagem.

Por fim, vale ressaltar o importante papel político que a pintura de Eugênia França abraça em um contexto de uma era inundada pelo excesso de imagens e pela consequente sensação de esquecimento advinda da velocidade do tempo presente. Uma mostra como essa tem o papel de combater o nosso emudecimento e escapismo diante dos fatos, nossa apatia em enfrentar o problema da perda de identidade da infância e pacificar uma categoria de memória que deveria representar esperança diante de um mundo que se revela cotidianamente caótico.

 

Texto Alan Fontes

Artista, pesquisador e professor de pintura na Escola Guignard / UEMG.

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