Exposição: Bachelard Catu e uma Prolepse

Bachelard Catu e uma Prolepse

Em AIntuição do Instante, Gastón Bachelard reconhece a intuição não como um ato único ou indistinto, mas como um ato uno, de consciência e de mundo. O próprio mundo é o sempre-presente, de um modo radical, o instante. É nesta perspectiva que venho utilizando minha intuição para olhar o mundo: por nele estar presente, aproveito os instantes que ele me apresenta.

Quando capto as coisas, eu separo, arquivo e coleciono. É Derridaquem diz que o ato de arquivar gera uma repetição: o arquivoé aberto e enriquecido, portanto, nunca fecha; e o instante do arquivamento causa um único ponto que não é qualquer um, mas aquilo que vai ser necessário um dia. Eu colecionoimagens e objetos banais do cotidiano, com um olhar cuja sensibilidade enxerga o instante que às vezes ao outro é invisível, como estes panos da Catu.

A verdadeira realidade do tempo não é a sua duração, mas o instante, como diz Bachelard. Em outras palavras, o instante é, em seu estado sintético, um ponto no espaço-tempo. Em seu exercício diário da profissão, Catutrabalha a repetição: o tempo todo, todo o tempo; os panos, registros de momentos-pontos, tornam-se inscrições espaço-temporaisnos cheios e nos vazios, do espaço e seus limites.

O som presente no ambiente também evoca a repetição. Para Bachelard, a repetição dos instantes forma ritmos e estes,entre os instantes, seriam o que ele chama de “continuidade do descontínuo”, caracterizando um tempo especializado e emmovimento. O áudio é uma reprodução das leituras realizadas Grupo de Estudos Literários e Culturais: Memoria e Contemporaneidade,que participo. As camadas de som sobrepostas formam um som único e repetitivo e a única frase compreensível é a que permeia toda a exposição: “é necessária a memória de muitos instantes para fazer uma lembrança completa”.

Wagner Thomaz
Artista Plástico

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