1ª Temporada de Exposições 2017

Período: 09 de maio a 09 de julho de 2017

Exposições:
Liames, de Cristhina Bastos e Kyria Oliveira
Visões Fractais, de Marcos Rezende
Você é Responsável, de Marilena Grolli
O Olho da Garça, de Jussara Stein
Bachelard Catu e uma Prolepse, Wagner Thomaz

1ª Temporada de Exposições 2017

Diversidade e inovação definem as cinco mostras que compõem a 1ª Temporada de Exposições 2017 do Museu de Arte Contemporânea, unidade da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. Plurais e construídas a partir de técnicas diversas, elas possuem a capacidade de abraçar diferentes aspectos da nossa cultura e convidam o público para novas experiências sobre a arte brasileira. A abertura aconteceu no dia 10 de maio (quarta-feira), às 19h30.

A exposição Liames apresentou as instalações mais recentes de Cristhina Bastos e Kyria Oliveira (Espírito Santo), investigações que estão em pleno estado de reflexão. A etimologia da palavra vem do latim “ligamen”, do verbo “ligare”, ou seja, vínculo, unir, atar, ligar. O título remete ao trabalho das artistas com as questões da casa e do tempo, seja o passado, o presente ou o vindouro.
Para a curadora Clara Sampaio, mestre em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo, enquanto se finca em um movimento de resgate, o trabalho de Kyria Oliveira assume as formas do passado gravadas pelo tempo em seu ateliê. Já Cristhina Bastos parece experimentar, em pleno acontecimento nessa exposição, uma trama que conta a evolução de seus casulos.

Cristhina Bastos / Instalação
Das maquetes às obras em suas escalas finais (ou provisórias), Liames procura o caminho que se encontra na poética do outro, o que nos liga às questões do mundo e à constante resilência humana. A exposição permite aproximar os casulos-processos de suas artistas ao público e convida à construção de uma materialidade fugaz por meio de suas histórias, sombras e sobreposições sempre em mutação.

A série O Olho da Garça, da artista Jussara Stein (Campo Grande), traz para o primeiro plano o papel da pintura, ao mesmo tempo em que devolve o tema para segundo plano. O olhar recai sobre os grandes planos pictóricos, que ali estão dados pelas largas pinceladas, resultantes do gesto decidido da artista de marcar a própria obra.
Segundo a crítica de arte Maria Adélia Menegazzo, Jussara Stein organiza o seu material com vistas a dotá-lo de significado. “É nesta organização que o domínio técnico da artista, resultado de um longo processo de formação tanto acadêmica quanto do diálogo com outros artistas, encontra sua melhor performance”.
A mostra remete à capacidade de apreender um entorno maior com os olhos, oferecendo um foco mais ou menos nítido sobre determinados aspectos da realidade. Se o mais nítido conforta, o que está insinuado ou velado, instiga. O que está em tensão é a capacidade da artista de dizer e não-dizer, de mostrar e velar segundo as suas próprias regras, cabendo ao observador encontrá-las.

A mostra de esculturas Visões Fractais, do artista plástico Marcos Rezende (Campo Grande), leva ao público a força lapidada de múltiplas linguagens, construídas sem pressa ao longo do tempo e que chegam ao Marco com a expressão segura de quem sempre soube que, um dia, sua arte colocaria os pés na estrada.
A força do artista se apresenta nas esculturas de personagens emblemáticos que povoam a contemporânea história e marcam a estreia de um artista que experimenta as mais plurais técnicas e linguagens culturais em Mato Grosso do Sul.
Com a exposição, que vai buscar nas raízes de sua terra as figuras de Manoel de Barros e Conceição dos Bugres, o momento da obra de Marcos Rezende fica definido, um marco de contemporaneidade que evoca os nossos principais expoentes culturais, figuras à frente do seu tempo, enquanto persegue outras tantas personas para esculpir.

Bachelard Catu e uma prolepse, mostra do artista plástico Wagner Thomaz, bebe na fonte de A Intuição do Instante, de Gastón Bachelard, que reconhece a intuição não como um ato único ou indistinto, mas como um ato uno, de consciência e de mundo. “É nesta perspectiva que venho utilizando minha intuição para olhar o nosso meio: por nele estar presente, aproveito os instantes que ele me apresenta”, explica o artista.
São trinta obras produzidas em técnicas mistas e som ambiente em “loop”. A repetição dos instantes forma ritmos e estes, entre os instantes, seriam o que Bachelard chama de “continuidade do descontínuo”, caracterizando um tempo especializado e em movimento.
O áudio é uma reprodução das leituras realizadas pelo Grupo de Estudos Literários e Culturais: Memoria e Contemporaneidade. As camadas sobrepostas formam um som único e repetitivo e a única frase compreensível é a que permeia toda a exposição: “é necessária a memória de muitos instantes para fazer uma lembrança completa”.

O traço característico do Grafitti de Marilena Grolli (Campo Grande) é identificável pelo estilo de seus personagens inconfundíveis. As cenas transgressoras e provocantes, apesar da ironia nelas contida, não abalam o senso de humor e nem o peso da mensagem subentendida, como é clássico na Street Art, ou Arte Urbana, que se destaca pela irreverência e seu humor ácido nos espaços públicos. Estampados pelos muros de várias cidades do país, sua arte tece sátiras a certos tipos de comportamentos da sociedade expressos em situações pouco convencionais.
Seus protagonistas, os Capengas, tortos e divertidos, refletem o lado trágico e cômico de vida, expressões humanas que, como Marilena Grolli, superam os desafios da vida: quando cai, levanta com ânimo colorido. Sua história como artista plástica e grafiteira é uma, entre tantas outras, de luta e investimentos para expressar e expor sua arte.
A obra tem como título a frase nela estampada: você é responsável. Mensagem direta e ao mesmo tempo subjetiva, não direciona sua intenção, mas traz à tona muitas questões e desafios sociais. Lança ao expectador a afirmação e, consecutivamente, a indagação sutil e vital do ser humano no momento conturbado em que vivemos: você é responsável. Você é responsável?

Por Márcio Breda

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