Exposição: Acidente Geográfico

ACIDENTE GEOGRÁFICO

Há uma sedução muito cara ao visitarmos, feito passageiros, um desastre natural. Somos seduzidos pelo horror. Somos seduzidos pela precariedade de um mundo cuja ordenação é dada como certa. Ao caminharmos por uma paisagem de destroços vivenciamos um evento para além de nosso cotidiano e que assim, à distância, em margem de segurança, nos parece um evento onírico.

De imediato pensamos em registrá-lo para guardar as imagens do extraordinário. Quando se é artista pode se pensar em como utilizar tais imagens para pôr em relevo o fato. Porém, ao trabalhar a visualidade do desastre, na tentativa de reproduzir a potência sensorial da experiência, é grande o risco de soterrar o problema real ao qual se está diante.

Querer aguçar os sentidos do espectador, fazendo uso da representação, parece acomodá-lo no visível, tornando-o estéril. A representação é, nesse caso – e contraditoriamente –, a margem de segurança que distancia o espectador do mundo. E,portanto, mostra-se ser um grande fracasso, se caso não revermos as próprias estratégias da Arte em abordar assuntos como este.

No léxico da Geografia, acidente geográfico é o termo utilizado para designar formas do relevo terrestre que podem ter origem natural (lagos, rios, serras, planícies, etc.) ou artificial (casas, cidades, pontes, etc.). Se vê que o termo evoca, então, não tanto o sentido de algo ocasional, incidental, imprevisto, instantâneo. No caso de acidentes cuja origem é artificial, o sentido posto em cena é justamente o contrário daquele que nos é mais familiar; valora-se o intencional, o proposital. Já, no caso de acidentes cuja origem é natural, valida-se a medida do tempo geológico; acidente trata-se de uma forma resultante de um processo lento e gradativo de mudança duradoura. É esse o termo utilizado para nomear a série de desenhos que dão nome à exposição.

Aos olhos do espectador, corre-se o risco de que a visualidade apresentada aqui seja lida como uma escrita modernista, em que o artista exercita um mero formalismo, pretendendo a autonomia do objeto artístico. Acidente geográfico pode, então, soar como um contrassenso, diante do momento atual em que a produção artística procura se desvencilhar dos regimes modernistas.

No entanto, Acidente geográfico não é decorrente de uma pulsão de desejo do artista; não é resultante da expressão de sua individualidade; nem tampouco trata-se da invenção de uma forma. Sua visualidade não é nova. Simplesmente calhou de ser esta a que melhor respondeu às operações construídas pelo pensamento (ao rito do desenho). O que o torna particular é, então, justamente o que escorre por detrás do visível: o acontecimento de sua feitura (a), a mediação que o desenho cumpre entre espaço e corpo (b) e, a reivindicação do papel social do artista enquanto trabalhador (c). O que se oferece aqui é o entendimento da importância do Acontecimento (a+b+c) na construção do Espaço estético, uma similitude do próprio ambiente construído em que vivemos.

Se a fala do artista sobre seu trabalho tem sido imprescindível à leitura dele por terceiros (críticos, público, etc.), torna-se importante dizer que tais desenhos, em si, não nasceram para ser consumidos e apreciados como obras de arte. Acidente geográfico tem mais a acrescentar enquanto estudo preparatório sobre a ação de desenhar e sua relação com o espaço – seja o suporte, seja o ateliê –, do que enquanto visualidade pura. É por meio do ato de desenhar, e na atenção dada às transformações que sofrem o espaço ao longo de sua artesania, que elaboro pensamentos sobre as possibilidades do Desenho. A série Acidente geográfico é, portanto, coincidentemente ao próprio termo no léxico da Geografia, índice de acontecimentos.

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