Exposição: Matéria Derivado

MATÉRIA E DERIVADO

Sempre que olhamos para uma folha de papel, estamos diante de alguma informação que ali
está contida, redigida, ou gravada. Seja um texto, um desenho ou um gráfico, olhamos
diretamente para a informação, para os códigos descritos nas folhas de papel sem que de fato
nos atentemos para o objeto ali à nossa frente, em nossas mãos. Mesmo com nossos olhares
direcionados para as folhas, na verdade nunca as vemos. Tocamos, sentimos, mas permanecem
invisíveis.

O convite a pensarmos as possibilidades do papel para além de sua condição de suporte da
informação e da imagem sugere que pensemos uma espécie de genealogia material, trazendo à
tona em nossa mente a inflexão madeira/papel, na qual um composto orgânico faz surgir um
composto industrial, numa dupla existência, em que um só é possível através do outro, e, ao
mesmo tempo, constrói uma relação paradoxal de subordinação e interdependência. Portanto, a
investigação da ressignificação da madeira a partir de um processo de síntese e transfiguração,
que resulta no papel, encontra aqui uma poética da coexistência: madeira e papel atuam juntos
em um discurso difônico com vozes dissonantes.

Matéria e Derivado surge da articulação visual entre a madeira e o papel. Essa madeira parece
emergir das pilhas de papel, penetrando-as de forma embreante e propositalmente orgânica
sem, contudo, opor tal organicidade a suas formas marcadamente geométricas. Das
composições com madeira [matéria-prima] e papel [derivado] surgem estruturas que conjugam
materiais do cotidiano. A exposição é pensada como uma grande instalação, ou um corpus de
estruturas que transitam entre esculturas, objetos e fotografias, nas quais o imaginário particular
de formas geométricas abstratas funciona como um ponto de partida para o espectador também
imaginar, ver e experienciar, muito mais do que simplesmente interpretar.

São proposições e intervenções no espaço gráfico da folha de papel que trazem à superfície a
própria materialidade desse objeto, comumente relegado à condição de suporte. Matéria e
Derivado preocupa-se com a materialidade do papel e a linearidade da madeira, objetos tão
coadjuvantes na História da Arte. As obras aqui apresentadas englobam o escopo da
investigação poética de uma perspectiva inusual da qualidade tridimensional da folha de papel e
a possibilidade bidimensional e não-figurativa das linhas da madeira, numa tentativa de
verticalizar e suspender no tempo e no espaço o que se tende a ver preso e absorto numa
condição de passividade.

Guilherme Moreira

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