Exposição: Variáveis de bancos de jardim

Variáveis de bancos de jardim

Arte não se ensina, se apreende e se aprende através da observação e das práticas artísticas. A gravura para Silvia Ruiz nada mais é do que a necessidade de expressão que se dá pela manifestação misteriosa da poética do ser humano que, em seu caso, se dá na arte de gravar sobre a madeira e o metal.

A arte volta para sua tradição diante de um mundo feito por imagens digitais e traz consigo um dado novo quando se observa o crescente interesse dos artistas buscando nas linguagens tradicionais (feitas com a mão), o seu meio de expressão. São imagens de rara beleza que extraem das técnicas tradicionais a poética que busca no cotidiano as situações e objetos banais como temas a serem retratados.

Para esta mostra, Silvia Ruiz traz fotogravuras e xilogravuras de cortes vigorosos desprendidos sobre a madeira e depois transferidos para o papel. Entalha na madeira e transfere a imagem para o papel com a colher de pau e é desse gesto que extrai toda a expressividade da linguagem com vistas de bancos! O que exige da artista dedicação e força nos braços e mãos para cavar e imprimir. É um trabalho exaustivo para conseguir os belos e delicados resultados sobre grandes folhas de papel.As suas xilogravuras são de grandes dimensões e tem como resultado a beleza incomum de imagens poéticas das cidades vistas por um tema único e inusitado, o banco. O interesse da artista é pelos bancos de jardim, mais precisamente. Mas também aparecem outras variações em suas gravuras.

As imagens são de uma banalidade e simplicidade que chegam a gerar dúvidas e estranhamento. Por que tão simples? E por que de tão simples são belas estas gravuras? Foram estas as primeiras perguntas que me fiz quando me deparei com suas gravuras no Salão Nacional de Artes Visuais de Jundiaí, em 2013.

De linhas simples e cores chapadas, os bancos adquirem uma expressividade pouco vista para um equipamento urbano dessa natureza, que no dia a dia não se nota mais nas praças e jardins. Tornaram-se desimportantes. As pessoas nas cidades brasileiras não têm mais o hábito de sentar nos bancos. Em uma sociedade acuada pelo medo do convívio com o outro, os bancos passaram a significar o perigo por darem lugar para moradores em condição de rua, para a vadiagem e para os que não fazem nada, simplesmente contemplam a vida.

Os bancos de jardim podem significar momentos de contemplação e de reflexão quando se encontra consigo mesmo. Momentos necessários para a criação. E são estas as condições dos bancos que Silvia Ruiz explora. O banco necessário para a vida urbana.

Mas não é fácil ser sucinto, simples e poético na arte contemporânea e se expressar de forma tão direta com imagens de bancos. A arte requer cada vez mais como um dos seus ingredientes a ousadia do artista. É uma ousadia o artista buscar na linguagem tradicional o seu meio de expressão em um momento que se vê na arte contemporânea uma desmaterialização das técnicas e do objeto artístico. É mais uma ousadia em tempos de arte cerebral um artista vir com um trabalho que “retrata” bancos de jardim, uma imagem a princípio inocente, pueril e de matriz romântica à maneira como Silvia Ruiz nos mostra.

Fazer gravura nessa lógica de um tempo acelerado, tratar nessa gravura o banal, o quotidiano e os dilemas da sociedade contemporânea de forma tão delicada na imagem gravada, é uma tarefa artística difícil e, muitas vezes, incompreendida, não aceita. A artista fotografa bancos por onde passa. São imagens dos bancos vazios, singelos e solitários. São lugares por onde passou e lugares que guarda em sua memória.

Não se vê a figura humana. Os bancos estão sempre vazios. Mas um banco desprovido de um ser humano sentado ou recostado não poderia existir. Não faz jus a sua função nas cidades. Não faz sentido. Tornam-se mobiliário estranho e imagem melancólica dos parques. “Seres” solitários. As gravuras de bancos de Silvia Ruiz trazem uma dose de surreal, de fantástico, na maneira que os retrata, os grava e imprime sobre o papel.

Bancos foram feitos para sentar, descansar, conviver e interagir com o que senta ao seu lado. Também são feitos para contemplar e esta, talvez, seja a sua principal função. É o lugar do descanso. Da pausa no dia a dia, na parada no meio da caminhada para o trabalho, ao sentar para conversar com um conhecido, com uma conversa desinteressada com um estranho. Do não fazer nada e de jogar conversa fora com os conhecidos.

É o melhor lugar para o ócio. Para o ócio criativo tão caro e necessário para se criar, para se inventar. Para se pensar a arte. O que a artista faz é uma homenagem ao banco de jardim. Serve como um alento para os bancos, porque não, ao dar a eles sobrevida nas suas gravuras.

Para muitos filósofos, cientistas, intelectuais e artistas, andar, contemplar, entrar em contato com a natureza e consigo próprio numa caminhada, sentado em um banco de jardim ou na rua, são os momentos da criação humana. É onde as grandes invenções acontecem. Sentar-se em um banco de jardim para ler, conversar, pensar e criar, são gestos simples do dia a dia. Os fundos de onde se vê os bancos nas gravuras são aleatórios, inventados pela artista. Quando não restam solitários no meio do branco infinito da folha de papel.

As cores são poucas e se repetem de uma gravura para outra, predominando no conjunto os amarelos, os marrons e os brancos do papel, entremeados por outras em tons de azul. São belas as “pinturas” gravadas com delicadeza pela artista do mundo à nossa volta, dando à realidade um plano exclusivamente subjetivo. Não pretende “gravar” o banco em sua aparência e sim em sua essência poética.

Imagens que vêm da introspecção interior ou nas próprias ações da artista e das anotações visuais que faz da cidade. Silvia Ruiz faz uma espécie de diário dos fatos do seu quotidiano e das ocorrências dos seus estados de espírito ao observar um simples banco de jardim e transformá-lo em uma poesia visual gravada.

Ricardo Resende
Crítico e Curador de arte
Atualmente curador do Museu Bispo do Rosário-RJ

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