Exposição: Opus – Sanus per aquam

Verter

A obra da paulistana Fabiola Racy se pauta por algumas inquietações comuns aos artistas contemporâneos, e, como não poderia ser diferente, de quem elege a pintura como protagonista de sua poética. Um dos vetores fundamentais é a relação por vezes alargada, por vezes reduzida, entre o desejo de autonomia da linguagem plástico-visual utilizada e, ao mesmo tempo, as fortes condições da contemporaneidade em que se encontra a artista, a produção e todo o entorno de trocas e intercâmbios possíveis do individual e do público, entre outros elos.

É importante destacar que a artista trabalha no Campo Belo, bairro que, como diversas outras localidades metrópoles afora, é cortado e delimitado por uma avenida de grande fluxo – no caso, a Bandeirantes, uma ligação viária importante nos caminhos entre o litoral e o planalto de SP. Essa barreira movediça cria bordas e encerramentos menos maciços e mais imateriais (contudo nem por isso imperceptíveis). Então, a atividade cotidiana de Racy se dá em bons ambientes, que podem dar profundidade às lidas diárias de ateliê, por exemplo, mas que, por uma visada de janela ou por ruído, trânsito, ar e tantos outros dados, acabam ‘contaminados’ por essa urbe de enorme escala e de fluxos sem interrupção. A circulação maximizada de quase tudo que podemos pensar, portanto, intervém de modo bem concreto na rotina da artista, tal qual uma buzinada incômoda, um rastro de fuligem a sair de um escapamento ou o rasgo do ar por um avião de grande porte (o aeroporto de Congonhas também não dista muito).

Para a série agora exposta em Campo Grande (MS), seguem algumas explicações sobre o processo de construção dos trabalhos. A artista coleta fotografias de periódicos diários, sem tanto interesse, mas que trazem paisagens variadas. Depois dessa escolha, usa essas imagens – em geral, detalhes e recortes das composições ‘originais’ – para dar o pontapé inicial nas criações pictóricas (no caso, bastão a óleo sobre papel vegetal). Ou seja, o que anteriormente eram registros de amplidão almejada, agora viram uma base imagética, um clique dentro de um panorama, uma referência que vai se desgastando e se transformando em outra coisa.

“A fragmentação é a forma mais genuína da condição dispersa da pós-modernidade, e quando se toma essa condição híbrida como ponto de partida, quando se resiste à tentação da unidade, identidade e metafísica, recorre-se a mecanismos que recompõem certa totalidade, múltipla e fragmentária, como o mosaico, a colagem, a montagem, a ensembladura ou a sobreposição; potencializa-se a complexidade geral e a individualização de cada parte (…) Entramos, portanto, no terreno do artista bricoleur, capaz de criar um novo tipo de beleza: inédita e convulsa, impactante e surpreendente”, 1 assinala o teórico de arquitetura e urbanismo Josep Maria Montaner.

Então, vemos que a obra de Racy transita entre polos a priori antagônicos, mas que, juntos, forjam configurações outras de definições mais fluidas. Pois se a fotografia, o universo impresso e a colagem ajudam a desestabilizar o pictórico, a persistência da artista em cada peça termina por dar novos contornos à tradicional linguagem a partir dos próprios ‘assuntos’ da pintura e com as quais ela cria embates a todo tempo. A flexibilidade do bastão ajuda na imprecisão das figuras. A paleta da artista, que habilmente traz diálogos fecundos entre cores claras e escuras, entre campos ora mais vazios, ora mais preenchidos, aparenta conforto nas pequenas dimensões das peças, dispostas sobre a fragilidade do papel vegetal – com isso, as linhas e a materialidade do desenho terminam por dar outros atributos à pintura.

E Racy parece explorar mais hoje a tênue ligação entre figurativo e abstrato, concreto e idealizado, palpável e projetivo. Se cadeiras, escadas, piscinas e empenas transpareciam mais a presença em séries anteriores, agora a artista usa curvas, linhas, bifurcações e massas para deslocar nossas certezas e construir paisagens inquietantes, menos claras de sentidos e mais repletas de dubiedades.

Mario Gioia, abril de 2016

1. MONTANER, Josep Maria. Sistemas Arquitetônicos Contemporâneos. Barcelona, Gustavo Gili, 2009, p. 148

DSCN9615

DSCN9617

DSCN9619

Anúncios