Exposição: Dedicatórias

3ª Temporada de Exposições 2014
12 de agosto à 12 de outubro de 2014
Exposição: Dedicatórias
Artista: Hermano Luz

Lembrar – Nomear

Ainda hoje, em rodoviárias da América Latina, um fotógrafo lambe-lambe oferece como produto de seu trabalho pequenas fotos em preto e branco no formato 3×4 ou, no máximo esforço de modernidade, o opcional monóculo com o pequeno diapositivo colorido.
Ele sobrevive ao lado de seus concorrentes, a máquina automática de retratos e a vitrine em que são oferecidas câmeras digitais, enquanto na calçada em frente um transeunte recebe por email a fotografia da namorada em seu telefone celular. Essa convivência, de caráter absolutamente político, indica um conflito típico da urbanidade, que se reproduz em várias escalas.
Enfrentamos displicentes, ou no máximo curiosos, o confronto com o processo constante de ultrapassagem das mídias de registro. Enquanto os mais velhos se atualizam com grande empenho, para escapar de um ameaçador fosso jurássico, aos mais jovens resta, sob a forma de valor disperso, um conjunto de mecanismos cujo caráter tornou-se antropológico, eventualmente estético. Atestam a transformação como parte indissolúvel do tempo vivido, povoado pela melancolia do acúmulo de recordações.
Faz-me lembrar de minha infância em Três lagoas, de quando íamos ao estúdio de Fares Zaguir para o retrato dos irmãozinhos vestidos de marinheiros, congelados de cabeça para baixo sobre o nitrato de prata, aguardando o flash antiquado disparar. A foto quase sépia era ampliada em um papel de textura pesada, tinha sua borda branca cortada como uma renda e recebia no canto a chancela de assinatura em relevo, atestando a autoria daquele senhor de dedos amarelados, carcomidos pelas químicas laboratoriais.
Hoje, para um artista de vinte e poucos anos, frequentador das redes sociais, as fotografias de suas primeiras festas de aniversário, celebradas há menos de quinze anos, se transformaram em lâminas de matéria peculiar e cor já obsoleta, atestando a superação daqueles mecanismos de lembrança. Meus próprios registros já estão depositados sob uma pilha de obsolescências pré-pager, pré-fax, pré-polaroid, praticamente junto à prensa de Gutenberg.
Minhas fotografias de infância, mesmo aquelas coloridas, tiradas por meu pai com sua Laika portátil, não apenas registravam uma forma de vida, mas referiam-se a outra forma de usufruto e de manipulação do tempo na vida. Elas eram tomadas, ou melhor, tiradas. Tirávamos fotografias, como se tira alguma coisa de algum lugar, e nessa operação especialíssima algo se concretizava em nossas mãos e havia uma expectativa por essa materialização. Esse atributo conferia à máquina um poder único e ao seu produto um valor, um sentido específico. A fotografia não apenas registrava, mas, acima de tudo, destinava-se. Seria preservada em um álbum, acolhida entre cantoneiras e folhas de papel de seda marchetado e ganharia uma legenda, explicitando a ocasião. Ou ainda, mais especialmente, ganharia uma dedicatória, seria entregue pessoalmente como um regalo ou enviada pelos Correios para parentes e amigos.
Sendo originalmente a expressão de um vínculo afetivo, transferido para o suporte fotográfico como componente de narrativa, as dedicatórias perderam seu suporte tradicional, esvaziando suas destinações. Com elas expressávamos votos, cumprimentos, aludindo eventos e celebrações. Compartilhávamos os destinos, expressando o desejo de presença, assinalando as relações e incluindo, como parte da vida, aqueles a quem eram dedicadas, como se disséssemos: A você que me conhece, dedico por me reconhecer.
Mas assim como os realengos, o circo de pulgas e a máquina datilográfica, as vitrolas, os filmes super-8 e mesmos os laserdiscs, essas fotografias foram superadas na normalidade das atualizações tecnológicas. Restaram como “aparelhos” sobrepujados, bugigangas colecionáveis engraçadas, beirando o inútil, e legaram, como resíduo mais inverossímil, suas embalagens, seus manuais, assim como suas dedicatórias. Suas regras de funcionamento.
O fato é que a mudança de mídias cria suas próprias relações. Certamente aquele conteúdo poderá ser alcançado por outras vias, mas isso se dará com outro fundamento e as perdas ocorridas nessa transformação serão visíveis e estarão expressas na dificuldade de compreensão dos resíduos correspondentes, essas regras de funcionamento.
Tal perda refere-se à mudança de sentido dos componentes originais de uma linguagem corrente, forçando a distinção de seus mecanismos. De alguma forma a dedicatória apaga-se do papel como fotografia que, por sua vez, ao se apagar no tempo, acende significados distintos para uma determinada massa original de pensamentos. Ali, entre eles, a memória e a lembrança passam a se distinguir como coisa mais específica. Como se deixasse de ser uma faculdade da memória, a lembrança se solidifica como seu souvenir. Uma materialização para o descarte, pois questiona as formas de sua fixação.
Um filme, assim como um livro, pode conter uma dedicatória de seu autor a alguém. Fatalmente ela será inserida no final, depois que o filme se encerrou, ou no começo, antes que o livro esteja plenamente aberto. Mas aí o que se dedica é a obra completa, e não uma de suas imagens específicas. É a coisa fechada, desprovida de movimento, que pode ser dedicada, pois o que ali se assenta é uma forma de corpo a ser completado pelo reconhecimento. É dessa forma que se constitui a materialidade do afeto, como coisa necessariamente estática.
A natureza morta, assunto da pintura, reveste-se de um caráter similar, modelando a memória para continuar a existir. O still life é a vida parada em pose, para que se construa a imagem. E, assim como o fruto que virá a amadurecer, a criança retratada atende a uma forma de vingança adulta, contra seu ímpeto de transformação. Transforma-se a própria fotografia em dedicatória, como se disséssemos: A você que não mais reconhecerei, dedico para me reconhecer.
Ocorria um movimento pendular entre fotografia e dedicatória que as fazia complementares. Imagem e palavra partilhando e alternando os sentidos daquilo que é incompleto. Mas nem tudo que se escreve sobre uma imagem funciona como dedicatória. A legenda do filme transcorre pela ação suposta, por acompanhar uma relação expressa em idioma variado. Dedica-se aquilo que é reconhecível, enquanto legenda-se o desconhecido.
Em Hermano Luz tais elementos ocupam o centro de interesse por despertarem uma forma de indiscrição, ativada pelo desejo de reconhecer origens e, simultaneamente, mover o artista em direção ao desconhecido. Das imagens de testemunho de seu curto passado ele migrou, rapidamente, para genéricos apropriados, de onde extrai e incorpora referências para a construção de suas pinturas. Os componentes são os mesmos, mas a desconstrução a que ele se dispõe distende os limites de manipulação, mantendo as possibilidades de leitura.
Seu trabalho se constrói como colagem da figuração e de seus fragmentos, permitindo-nos distinguir suas partes, dispersas no recorte de manchas quase indecifráveis. Da mesma forma as veladuras que amortecem planos inteiros ou o revestimento de cor sólida que fecha o cerco, concentrando o interesse em uma fração de foco. Ou as linhas de texto, que atropelam as imagens, interferindo diretamente sobre suas leituras. Ou mesmo a justaposição de telas, sugerindo uma lógica de associações manipuláveis como capítulos de um livro, cuja posição define a trama. São, todos eles, componentes reforçando uma mesma reconstrução, mas não se referem ao relato, pois não pretendem um status de narrativa objetivada.
A questão é a pintura, feita para acolher as leituras mais pessoais e imagináveis, para funcionar como superfície espelhada, onde a imagem tateia sentido na semelhança com a realidade, para encontrá-lo dentro do pensamento. Na escolha de seus assuntos, Hermano Luz elege o artista como aquele que se dedica e o trabalho como sentido único para sua dedicação.
Nas pinturas recentes as dedicatórias foram deslocadas como corpo anexo, como um reverso de moeda, a lembrar de algo que lhe pertence, aposto em seu verso e que por isso lhe é invisível. Algo muito pessoal, como uma mochila despregada de suas costas, mas que só pode ser vasculhada por contato. Reside nessa amplitude uma potência que caberá ao jovem exercitar, mas o vigor de sua investida já nos alerta, como se dissesse: Ao que não reconheceres, dedica-te para te conhecer.

Ralph Gehre
Brasília, julho de 2014

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