Exposição: Cultura X Natura

2ª Temporada de Exposições 2014
10 de junho à 03 de agosto de 2014
Exposição: Cultura X Natura
Artista: Cássio Leitão

Motivo: Desastres – A arte recente de Cássio Leitão
por Juliana Monachesi

Os desastres naturais, na série recente de pinturas de Cássio Leitão, não são um tema propriamente dito. Funcionam mais como motivo, como subterfúgio para pintar essas formas um tanto disformes e essas cores enevoadas, senão soturnas de tudo. O artista temporão – Cassio pinta desde sempre, mas há dois anos apenas é que decidiu assumir de vez a carreira – parte de fotografias de catástrofes para compor as telas, mas elege predominantemente ângulos fechados, que fazem o olhar patinar pela superfície da pintura, sem saber qual a escala dos destroços. Contribui para a sensação “deslizante” o fato de que o artista carrega nas tintas e não se sente, em momento algum, preso ao assunto, apegado a verossimilhanças.

A escolha deste assunto, então, parece sugerir um desejo de abstração. Afinal, poucas formas são mais indefinidas do que a de escombros de construções arrastados pela força da água e depositadas sem hierarquia nenhuma uns em cima dos outros a milhares de quilômetros do local original onde se erguiam antes do desastre – o furacão Katrina, em New Orleans, e o tsunami no Japão estão as catástrofes naturais retratadas. Reforça-o (o suposto desejo de abstração) a indefinição entre pincelada e desenho nas pinturas da série. Não há vestígios de desenho anterior na tela, mas as formas construídas apenas com a cor são, eventualmente, conectadas por uma pincelada unificante, que parece contorno e remete a desenho.

Finalmente, vale notar nesta série que, de certa maneira, inauguraa carreira de artista profissional de Cássio Leitão, a paleta tipicamente paulistana das pinturas, sobretudo as três últimas, com tons rebaixados e ausência de preto. Além, claro, da opção do artista por, em certas telas, deixar visível um fragmento de uma obra anterior que estava por baixo da pintura final. Segundo o próprio Cássio, não lhe interessa partir do zero quando vai iniciar uma tela. O procedimento aponta, a meu ver, uma outra filiação relevante: a de artistas apropriacionistas e colagistas que recusam o espaço supostamente neutro do cubo branco, assim como da tela branca. Um bom começo para uma trajetória longa que, agora, deslanchou!

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