Exposição: O Relógio Quebrado

1ª Temporada de Exposições 2013
10 de abril à 2 de junho de 2013
Exposição: O Relógio Quebrado
Artista: Henrique de França

O Relógio Quebrado

Para remontar o relógio desmantelado (…) o horologista examina uma engenhoca aberta que parece retirada de um conto de fadas; as peças avançam e retrocedem como uma máquina preguiçosa num sonho. O tempo do universo não pode ser marcado de tal forma. Um apetrecho tão frágil e torto só poderia contar as horas fantásticas de fantasmas ingovernáveis.(…)

De “O Horologista Lógico”
Reasonable Horologist
Reverendo Kenner Davenport, 1723
O tempo dos homens e o tempo de Deus. Chronos e Kairos. O primeiro, imutável, indiferente, decidido e avante; o segundo, permeável, vacilante, volúvel e traiçoeiro. No trânsito entre ambos, um avança sobre o outro, nos deixando ao revés da balança que pesa nosso estado em relação às circunstâncias. Há momentos em que o salto é abismal e sentimos tal incompatibilidade de forma mordaz, como se estivéssemos sob o controle de fantasmas ingovernáveis direcionando os ponteiros de nosso relógio de modo frívolo e irresponsável, ou com uma insistência objetiva e cruel em mantê-los em determinadas horas do nosso calendário. É quando percebemos as intempéries do nosso tempo particular, alheio ao decorrer do mundo e suscetível ao comando dos nossos torpores íntimos. Como um relógio quebrado, que teima em funcionar, ficamos à mercê de um contratempo rodopiante e descabido que paira sobre a realidade, como um tapete mágico que ignora a lógica e nos apresenta, à distância, o mundo segundo a percepção da nossa memória.
Os desenhos aqui apresentados discorrem sobre este estado letárgico, que nos desprevine e nos coloca no ponto central (ou tangencial) da superfície humana. E assim como uma página não escrita por descuido ou negação em uma passagem há muito passada para trás, eles apresentam incompletudes somáticas que constituem o vazio materializado em um branco massivo e sufocante, ou em uma rajada de tentativas nulas de reedição de uma tomada gasta, acumulando manchas como buracos negros em um filme cujos atores não podem mais reinterpretar seus papéis.
As cenas muitas vezes são dadas no limiar entre o dia e a noite, quando sombras de postes de luz e árvores esticam-se e deitam numa última tentativa de se prender à luz, a mesma luz que encara os personagens, os cega e os desnuda perante a própria melancolia associada à esta hora do dia. Como um diafragma aberto por tempo excedente, o foco é exposto a uma intensa claridade, quase fazendo desaparecer as figuras, dissolvendo-as no leite do papel. Cortes, interrupções, pausas e enquadramentos desajeitados povoam o emaranhado de frágeis retrospectos da existência, cabendo a nós fazer o apanhado dos resquícios espalhados, peça a peça, ou simplesmente abandoná-los na recusa de remontar um fantasma monstruoso. Jovens atravessam rituais de passagem cristãos, homens perecem sob o sol, casas se desfazem, crianças se vêem longe do lar, fugas são arquitetadas… Como num jogo de xadrez, os personagens se entrelaçam, se cruzam e se desdobram numa orquestra conduzida ao som de um metrônomo ora baixo, ora ensurdecedor, ora correto, ora desregulado, costurando uma trama cheia de nós, remendos e buracos.
Nas nossas horas mais frágeis, o tempo da nossa memória impera, independente da realidade ou de nós mesmos, e dá as cartas, dá o tom, dá os passos.

Henrique de França

 

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