Exposição: Museu de História Ficcional

1ª Temporada de Exposições 2013
10 de abril à 2 de junho de 2013
Exposição: Museu de História Ficcional
Artista: Yara Dewachter
“Museu de história ficcional”

Se esperamos viver não só cada momento, mas ter uma verdadeira consciência de nossa existência, a maior necessidade e mais difícil realização será encontrar um significado para as nossas vidas. A compreensão desse significado, que não é concreto, mas efêmero e transitório, não é subitamente adquirida numa certa idade, nem mesmo completamente alcançada na maturidade; é uma busca infinita, construída por pequenos passos a partir do começo mais irracional.
Está nas raízes da infância, etapa da vida tão explorada com o surgimento da psicanálise, o prenúncio de tudo que será estabelecido posteriormente. É desse ambiente primitivo e arquetípico, em que a consciência do mundo começa a ser estabelecida e passamos a experimentar a realidade cotidiana, que a artista plástica Yara Dewachter propõe uma reflexão ousada a respeito de uma questão inerente à pós-modernidade: a nossa relação com o mundo diante da influência da indústria cultural e da produção midiática.
Mais que isso. Ela procura e encontra uma maneira de nos fazer pensar sobre os limites positivos ou nocivos da realidade e da fantasia diante do enfrentamento da vida. Sem nos dar a resposta e sem estabelecer uma crítica direta às possibilidades que apresenta, Yara nos pergunta: O entretenimento enriquece ou entorpece a experiência humana? E mais: Se ele nos afasta do sentido da dor, o que seria de nossas vidas sem essas gotas de felicidade temporária? Estariamos sendo privados da vivência concreta e, por vezes, angustiante que é a vida? Aqui não interessa a conclusão, mas que você pense a sua experiência particular.
Ao adentrar o “Museu de história ficional” o nosso imaginário é confrontado. Personagens que nos remetem a vários períodos da indústria de desenhos animados, produzidos por diversos países e culturas, tanto obras clássicas como contemporâneas, são como que afundados até a cabeça em uma estrutura de cera. Yara consegue transpor a intensidade da ação em uma obra estática. Torna-se, dessa forma, impossível não pensar no indivíduo que afunda os personagens, ainda que a artista não esteja fisicamente presente. Seja uma serial killer, ou uma simples colecionadora de bichinhos indefesos, ela consegue habitar o espaço de maneira ativa. Trata-se aqui de uma obra que ultrapassa o sentido estético.
O principal questionamento da artista beira os debates da filosofia existencialista e da estética do absurdo: Estamos buscando formas de viver uma realidade mascarada para esquecer que as relações e a vida também nos oprime? É de uma maneira perspicaz que ela se apropria do universo infantil para questionar a idéia de felicidade aparentemente instituída no mundo dos personagens animados. E não teria melhor período da vida para escolher como abordagem.

É o momento das primeiras perguntas, que emergem de maneira efusiva e conflituosa. Como posso ter o alívio de todas as pressões? O que fazer para realizar os meus desejos? Eu poderei vencer todos os meus competidores? De uma maneira certeira Yara nos apresenta um problema. Existirá sempre uma solução e um final feliz assim como o dos personagens animados? Apesar das doses de fantasia, essas produções não seriam uma alternativa saudável para o caos em que vivemos, ajudando a dar um sentido mais doce para as nossas trajetórias? O filósofo alemão Arthur Shopenhauer postulou que “viver e se relacionar é sofrer”. Estamos falsificando o nosso sofrimento em nome de uma felicidade inatingível?

Renato Joseph

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