Exposição: Prêmio Marcantonio Vilaça

3ª Temporada de Exposições 2009
23 de setembro a 15 de novembro de 2009
Exposição: Prêmio Marcantonio Vilaça
Artistas: Wega Nery, Ignês Corrêa da Costa e Jorapimo

Prêmio Marcantonio Vilaça – 2009

A exposição apresenta as obras adquiridas para o acervo do MARCO através do edital do Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaçada, promovido pelo Ministério da Cultura através da FUNARTE (Fundação Nacional de Arte). Foram contempladas obras de três importantes artistas: Wega Nery, Ignês Corrêa da Costa e Jorapimo.

Sobre os artistas e suas obras

Wega Nery (1916-2007) foi pintora, desenhista e gravadora, nascida em Corumbá – MS, estudou pintura e desenho na Escola de Belas Artes de São Paulo e, posteriormente, com Joaquim Rocha, Yoshica Takaoca e Samson Flexor. Integrou o Grupo Abstração e participou de importantes exposições, entre elas a Bienal de São Paulo. Segundo Aline Figueiredo, Wega abandona a figuração em sua pintura aderindo ao abstracionismo geométrico, chegando ao abstracionismo lírico e informal em 1962, designando suas pinturas de “paisagens imaginárias”.

Maria da Glória Sá Rosa comenta que “a passagem do figurativo para o abstracionismo lírico remonta aos anos 1954/1955, quando Pietro Maria Bardi, na época diretor do MASP, convidou-a para o que constituiu sua primeira exposição individual”.

Já em 1975 o crítico Geraldo Ferraz, em estudo dedicado a um período de 20 anos da produção de Wega escreveu: “Pintura, portanto exceção, portanto exclusividade, portanto alheia à estrita observância gestual, ela espraia o sensível em sua insondável e desconcertante alteridade, aproximação violentamente arrancada, numa categoria estabelecida por Dufrénne. Em Wega uma cosmogonia”.

Sobre a obra de Wega, Leo Gilson Ribeiro comentou que é “uma pintura espasmódica de ação, de dinamismo mas estranhamente perpassada de melancolia, de esperança, de todos os arquétipos emotivos do ser humano: medo, angústia, dor, solidão, busca de paz, esperança, fé, derrota”.

Os títulos dos quadros relevam ligação cada vez maior com a poesia de autores de sua admiração como Drummond, Garcia Lorca, Rimbaud, Rilke.

Para o poeta Carlos Drummond de Andrade “À tona do mundo irrompem os mundos de Wega/ Violentos/ Verdenatais Vermelhoníricos/ Fazendo acordar a Natureza. /O último? /O primeiro dia da Criação inaugura a vida tensa/ Em que a terra é sonho do homem/ E a criatura descobre sua íntima dramática estrutura”.

Depois de ter participado de 12 Bienais, de ter realizado 80 mostras em várias cidades brasileiras, Wega Nery deixou uma vasta obra com mais de mil quadros, comentada pelos mais expressivos críticos do Brasil e do mundo.

Ignêz Maria Luiza Corrêa da Costa (1907–1987) nasceu em Cuiabá. Pintora filha do ex-governador de Mato Grosso, Pedro Celestino, mudou-se com o pai para o Rio de Janeiro em 1924, acompanhando-o no seu último mandato ao Senado.

Em 1933 expunha pela primeira vez no Salão Nacional de Belas Artes, recebendo prêmios e menções honrosas. Estudou com Cândido Portinari, na Universidade do Brasil, em meados dos anos trinta, com quem colaborou em obras como os murais azulejados e os painéis do auditório do Palácio Gustavo Capanema, no Rio, além da igreja da Pampulha em Belo Horizonte. Nessa ocasião, influenciada pelo mestre, sua obra adquire traços cubistas e expressionistas.

Ricardo Guilherme Dicke escreveu que “Ignez Corrêa da Costa tinha um talento imenso. E só quem tinha grande talento poderia ser aceito como aluno no atelier do mestre Cândido Portinari, como ela o foi. Seus quadros são simples e belos. Nos tempos em que ela pintava não há notícia de outro pintor que rivalizasse com ela, nesta terra”.

Ignêz foi uma verdadeira pioneira da pintura na região. Sua pintura era alegre, de cores vivas, tinha a inocência interiorana do centro-oeste mas ao mesmo tempo trazia uma influência do aprendizado com outros mestres brasileiros. Pode-se dizer que sua obra tem um ar intelectual, dado o geometrismo na representação de suas casas e também nos traços fortes, resíduos de Portinari.

Sobre a obra de Ignez, Maria da Glória Sá Rosa escreveu: “Algumas de suas criações, que remontam aos anos trinta, refletem o drama dos oprimidos, dos desabrigados da Terra. Figuras de rostos sem feições, pés deformados, corpos vergados pelo sofrimento refletem as lições do mestre, com quem aprendeu a preparar a tela e os chassis”.

A obra de Ignez situa-se em diferentes fases, a primeira retrata aspectos de Cuiabá, onde nasceu e passou parte de sua vida. “Igrejas, procissões, festas e tipos populares foram reinventados por ela numa espécie de ‘insight’ em que o inconsciente recolhia as impressões, enquanto a mão ia lentamente reproduzindo a forma dos objetos”, comentou Maria da Glória. Assim, em grande parte de sua obra deixou registrada a iconografia cuiabana.

Em Campo Grande, onde faleceu, registrou cenas e tipos de rua, pintou diversos florais e paisagens. Deve-se a ela a introdução da modernidade no panorama das artes plásticas em Mato Grosso do Sul ao utilizar princípios da vanguarda brasileira numa época em que a arte no Estado vivia engessada pelo academismo devido à distância dos grandes centros do país.

Na obra de Ignez podemos perceber a presença de signos das culturas negra, índia, cabocla, uma obra singular que esteve sempre em busca de uma identidade estética.

Jorapimo – José Ramão Pinto de Moraes (1937-2009) nasceu em Corumbá, em 1937. Em sua longa vida dedicada à pintura, conservou-se fiel aos princípios que lhe norteiam os caminhos artísticos. Um deles é a preservação da natureza, que aborda de diversas maneiras, de acordo com os ângulos analisados pelo espectador.

Jorapimo é um autêntico pioneiro das artes sul-mato-grossenses, foi dos primeiros a abrir um ateliê de pintura no Estado. Participou da Primeira Exposição dos Artistas Mato-grossenses, em 1964, e da criação da Associação Mato-grossense de Artes, em 1967.

Tendo como eixo o Pantanal, preencheu seus quadros com a luminosidade das águas do rio Paraguai, cercado pela arquitetura do Conjunto Arquitetônico do Cais do Porto, recriado em sucessivos tons, para reviver o passado de glórias de Corumbá, quando o comércio do Estado se fazia por meio da Bacia do Prata e a riqueza florescente estimulava a produção cultural.

“Nas Margens, lavadeiras esguias, de longos pescoços, que nos fazem pensar nas figuras de Modigliani, contemplam a solidão de um barqueiro perdido no horizonte infinito de um rio misterioso, por meio do qual o artista resume sua visão de mundo, semelhando ao fluir de uma corrente que se dirige ao mar da eternidade”, escreveu Maria da Glória. “São pinturas em que Jorapimo usa a espátula para dar larga dimensão aos espaços em que céu, mar e terra se fundem numa perspectiva única”, conclui.

As figuras de Jorapimo pertencem a um mundo virtual de luta pela sobrevivência. São lavadeiras, pescadores, canoeiros, gente humilde que desconhece a importância do próprio viver na paisagem de Mato Grosso do Sul.

Segundo Rafael Maldonado “em suas pinturas Jorapimo busca retratar, à maneira impressionista, toda a exuberância e luminosidade do Pantanal; a peculiar arquitetura do casario do Porto de Corumbá e também as lavadeiras e os pescadores pantaneiros na simplicidade de suas vidas. Esses elementos são recorrentes em suas representações, nos aproximando da realidade de um determinado lugar onde temos a impressão que o tempo parece caminhar num ritmo mais lento, meio que preguiçosamente, quase como um convite à contemplação da natureza com suas formas, cores e sons”.

A obra de Jorapimo coloca-nos diante dos mistérios da natureza e do homem em sua relação com o espaço e o tempo, nesse registro em que as cores invadem a memória para recompor a história.

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