4ª Temporada de Exposições 2008

Período: 2 de dezembro de 2008 à 1º de março de 2009

Exposições:

Pequenos Oratórios de “Coisas desúteis”, de Miska
Diálogos Gravados , de Arlete Santarosa e Lana Lanna (Conexão Dual)
Um Ponto, dois pontos. de Jú Maria e Dois ao Avesso
Gravuras, Acervo MARCO

Pequenos Oratórios de “Coisas desúteis”
Restos raros – as caixas de Miska

Percorrer a exposição das caixas de Miska significa indagar sobre o tempo e as lembranças, refazer percursos e definir imagens que se perdem na memória. São restos do tempo, de um tempo de afetividades.

O procedimento básico é o da constituição de arquivos, prática cotidiana da artista, para quem a obsessão pelo diminuto e o rigor da classificação parecem ser os meios que lhe permitem apreender momentos importantes da sua caminhada.

A opção pelo tridimensional não assusta a artista em seus 30 anos de carreira dedicados à pintura e ao desenho. Até meados dos anos 1990, Miska trabalhou insistentemente a temática dos povos indígenas, a beleza de seus corpos e elementos de sua cultura, utilizando como técnicas o pastel seco sobre papel e acrílica sobre tela. A partir daí, começa a série de trabalhos com mandalas. É possível estabelecer uma relação seqüencial entre as mandalas e as caixas atuais. A repetição dos elementos desenhados nas mandalas passa, a partir de um determinado momento, a exigir a colagem, numa tentativa básica dessa técnica: a materialização da forma no espaço pictórico.

Das mandalas às caixas, Miska vai aprimorando a seleção dos objetos, suas relações internas e disposição, ordenando seqüências de acordo com a narrativa que aí permanece em estrutura. Cada espaço das vitrines de Miska é um ir contra a corrente do dia-a-dia na recolha das pequenas coisas, do descarte do desimportante, e, principalmente, do guardar à toa que de tanto se repetir cria um sistema de arquivamento. Daí a utilização de caixas de tipógrafo, cuja organização permite as composições mais variadas. Vitrines diminutas de brinquedos, de perfumes que despertam a memória involuntariamente, de sapatos de meninas e bonecas, de brinquedos, de espelhos femininos, de afetos pressentidos, vividos e desaparecidos.

Nesse espaço de lembranças, esses Pequenos oratórios de coisas desúteis tiradas do abandono, em franco diálogo com a poesia de Manoel de Barros, abrem para o observador novas relações com as coisas e sua importância no acúmulo do cotidiano. Aqui, a palavra pode pouco, mas as pequenas coisas encontram seu espaço em cada um de nós, confirmando que o presente é verdadeiramente o tempo da memória e a lembrança sua eterna soberana.

Maria Adélia Menegazzo
UFMS/ABCA-MS

“DIÁLOGOS GRAVADOS”
Conexão Dual: ARLETE SANTAROSA e LANA LANNA
Exposição de Xilogravuras e Gravuras em Metal

É com muita satisfação que apresentamos a exposição “Diálogos Gravados” no MARCO e que vem sendo mostrado, desde 2007, em várias localidades do País e interior do Rio Grande do Sul.

O projeto idealizado em 2006 pelas artistas Arlete Santarosa e Lana Lanna, representa uma nova proposta na área da gravura. Desenvolvido em módulos, de maneira progressiva, conforme o desenrolar das dificuldades surgidas, o processo exigiu uma troca permanente, onde cada artista elaborou sua imagem tendo como base e ponto de partida o que foi feito pela outra. O conjunto das obras é uma sequência de xilogravuras e gravura em metal intercaladas e diferentes, uma simbiose e uma conexão de idéias, pensamento e criação. A investigação do conceito da individualidade, das diferentes maneiras de ver e sentir o mundo e lidar com uma mesma idéia se tornou fonte permanente de pesquisa e de documentação. O desafio a que se lançaram as duas gravadoras significou um esforço ímpar de combinar identidades distintas que resultasse num trabalho harmônico, ao mesmo tempo que cada uma preservou a força de sua própria expressão artística. A proposta inovadora e o conceito em que se baseou podem ser observados neste instigante projeto que combina as duas modalidades de gravura.

 

Um Ponto, dois pontos.
Jú Maria e Dois ao Avesso

Dispor sobre a exposição dos artistas Jú Maria e Dois ao Avesso é no mínimo, algo que deve ser feito com muito cuidado. Neste momento não se trata de mera convencionalidade da exposição, muito menos de predispor uma nova “aurora das artes” em Campo Grande. É um ato relacionado com a situação ortográfica de colocar pontos e parágrafos para melhor se conduzir. Ponto

Antes de mais nada, apresento a afinidade das duas propostas com um Grupo póstumo, o Comtempo. Um grupo que inevitavelmente se predispôs ao dilaceramento, seja pela convencionalidade das suas amizades, ou por tomar, em suas diversas noções, o termo virtual como uma característica inerente. As propostas dialogaram em momentos sob a custódia deste grupo. Este ruiu, ponto.

Jú Maria soma a si algumas vantagens desta relação, porém não deve ter a sua posição como artista tomada como descendente ou filial. É uma artista que desvela de sua própria experiência um jogo que traz a criação instalativa, explorando em formas sinestésicas uma atmosfera originada de uma busca memorialista. A proposta se destaca na riqueza de elementos e das particularidades na sua recepção. É onde a memória da artista está diluída para um novo entendimento. Ponto.

Dois ao Avesso é o resultado de uma sociedade. Nas relações da Internet, é o que pode ser caracterizado como fake. O sentido deste “falso” não deve aqui tomar o lado pejorativo, mas, como uma persona grega, não é uma máscara que esconde, e sim, a que revela. São dois artistas que a formam sem se desviar das suas individualidades. É como azeite e vinagre. O resultado são obras que tomam duas linhas e se complementam em consonância. A dualidade se funde na convivência e se esvai: ”Do azeite; suas ressonâncias íntimas, o imutável retrato interno humano, sem particularidades, ou só algumas poucas, muitas generalidades. Do vinagre; com larva de Munchausen no frasco, ilustrativo, particularidades, traço, vísceras, poucas generalidades, mas tem.” São trabalhos que vão desde a fotografia manipulada, vídeo, esculturas e instalações que se instituem como auto-agressoras em um mesmo espaço.

Desta forma, a exposição prima em reverenciar o intimismo de Jú Maria e de Dois ao Avesso, tendo, na sua montagem, o cuidado para preservar suas diferenças, mesmo estando lado a lado.

Dia dois, Dois ao Avesso.

Dois ao Avesso é o nome que caracteriza a produção de um casal de artistas plásticos que desenvolvem trabalhos particulares, lado a lado, a sete anos. Este relacionamento proporcionou constantes diálogos entre estas diferentes produções e hoje fica difícil distinguir o que é particularidade ou influência.

“Escolhemos nos apresentar por dois ao avesso como uma aceitação do nosso estado líquido. Não percebemos fronteiras entre nós, somos um casal de artistas que convive e produz conjuntamente a sete anos. Mesmo ainda preservando algumas particularidades, quando reconhecemos a necessidade individual presente nas propostas, assumir o rosto fake de “Dois ao Avesso” é declarar um não limite entre nossas produções – nos infuenciamos mútuamente até o dilaceramento, e nos reconstruímos em uma nova proposta. O nome vem disso. Estar dois e sempre ao avesso. Nesta exposição colocamos a disposição o início de trabalhos que estão se desenvolvendo para ambos…diluídos e ao avesso.”

Dia dois de dezembro, às vinte horas, Dois ao Avesso abre sua primeira exposição sob este título, no Museu de Arte Contemporânea (MARCO), acompanhados ainda do trabalho da artista plástica Jú Maria.
Nesta primeira exposição, os trabalhos apresentados foram desenvolvidos em 2008 e fazem parte de uma proposta que se consolidará em outras ações a serem realizadas em 2009. São trabalhos que mesclam técnicas diversas sob suportes variados, como na escultura, por exemplo, onde a técnica utilizada é uma variação de formas de forração em tapeçaria, “nossa modelagem é como fazer um sofá”, ou na impressão de formas baseadas em fotografias tomográficas. São dezoito trabalhos onde estas formas dialogam intrinsecamente.

O diferencial desta proposta é a forma como foi elaborada. Suas etapas estão sendo constantemente atualizadas em um blog na Internet (www.doisaoavesso.blogspot.com), onde são apresentados desde referências, até artigos científicos escritos pelos artistas e que somam na construção deste trabalho.

 

Investigação e abrangência no acervo do MARCO

O exercício curatorial sempre força o olhar do curador para direções inexploradas, um incrível desafio na descoberta de diferentes campos de leitura para a obra de arte.

Combinar temas, estilos, linguagens e vislumbrar nas diferenças oportunidades de comunicação de idéias e conceitos, leva a uma determinada articulação do pensamento estético, num mecanismo de experimentação visual onde cada obra assume posição estratégica na formação de um todo coeso.

Quando da matriz e da cópia apresenta um conjunto de obras que têm na sua concepção o princípio da multiplicidade, característica inerente da linguagem da gravura. Sendo assim, há a necessidade de utilização de uma matriz – madeira, pedra ou metal – onde a imagem é previamente trabalhada e depois impressa em papel.

Esses múltiplos de uma mesma imagem não diminuem a potência individual de cada cópia. O artista vê na gravura a oportunidade de maior alcance de sua obra, além da possibilidade de experimentação e dos resultados surpreendentes que só essa modalidade pode proporcionar.

A cor é uma presença quase tímida nos trabalhos, talvez porque a dramaticidade das imagens seja representada com mais eficiência na utilização do preto. A poesia da gravura é repleta de nuances, invenções e singularidades; um exercício árduo de disciplina que atravessa o tempo, traduzindo a permanência dos processos intimistas da arte diante às dimensões e tecnologias contemporâneas.

Rafael Maldonado
Curadoria

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