Exposição: Ni opresores ni siervos

3ª Temporada de Exposições 2006
24 de novembro de 2006 à 11 de março de 2007
Exposição: Ni opresores ni siervos
Artista: Luis Vera

 

Os processos de ocultação e revelação

Os processos de ocultação em nossos sistemas políticos e sociais logram muitas vezes uma refinada sutileza: ocultam-se coisas e fatos por meios que não deixam de ser criativos; outros, sem deixar de serem sutis, não deixam de serem convencionais e finalmente por meios que são simplesmente cruéis. Todas essas técnicas –ou todos esses ritos– marcam nossa vida cotidiana. São tão familiares que a maioria das vezes nos passam desapercebidos. Ou, o que é ainda pior, nos causam um marcado incômodo quando o rito não se cumpre como é esperado.
A ocultação não soluciona o problema. Apenas o recobre momentaneamente para que não consigamos vê-lo. Subterraneamente prosseguem os processos até se manifestem através de outros sintomas sem que possamos entender o seu desenvolvimento pois simplesmente o tivemos afastado de nossa visão.
Quando a terrível depressão do ’29 (agora deve se dizer 1929), com a quebra da bolsa de valores de Wall Street, uma onda de miséria nunca antes vista percorreu os Estados Unidos, desde os estados mais ricos de Nova Inglaterra, até os campos do meio-oeste que terminaram se transformando em grandes extensões empoeiradas com o abandono da agricultura.
Até hoje se continua observando como exemplo uma medida tomada pelo governo dessa época. O departamento chamado Farm Security Administration, relacionado com o que seria o Ministério da Agricultura, contratou numerosos fotógrafos, entre eles pessoas do nível de Dorothea Lange (1895-1965), Bem Shan e Walker Evans (1903-1975), entre outros, com o objetivo específico de percorrer o país de um extremo ao outro, e documentar a pobreza. Muito poucos governos devem existir na história que tenham decidido documentar fotograficamente um processo semelhante.
Hoje em dia, as imagens do grupo conhecido simplesmente pelas siglas FSA, constituem um corpus único dentro da historia da fotografia.
Vale toda essa longa introdução para chegar a Luis Vera e sua coleção “Nem opressores nem servos”, um titulo que teríamos que terminar de compreendê-lo dentro do contexto do Hino Nacional paraguaio de onde foi tirado.
Luis Vera submergiu em um problema muito atual, muito complexo, muito manipulado seja por um ou outro extremo; digo, tanto pela esquerda como pela direita. Um problema manipulado por políticos, sem importarem em quais desses dois extremos são encontrados, mas que desejam obter suas próprias vantagens e quota de votos. E é esta a primeira vez que vejo submergir-se um fotógrafo em um problema desta natureza.
Os movimentos migratórios dos camponeses provocados por uma série de situações adversas: miséria, falta de terras, mau aproveitamento do terreno, depredação dos bosques, ocupação de terras alheias, assentamentos precários, intento de criação de novas colônias, são algumas das características deste enorme problema ao qual não foi possível dar uma resposta satisfatória.
Existe quem pense que fotografia é um olhar objetivo da realidade. Luis Vera não só desmente essa crença tão popularizada inclusive entre gente que está no mundo da imprensa, mas também o faz com brutalidade. Sua câmera localiza o problema, isola-o, nomeia-o, capta-o comprometendo-se com essa imagem e, o que é ainda melhor, não permite que nenhuma forma de sentimento extra-fotográfico embace a qualidade de suas imagens. Em outras palavras: foge de tudo aquilo que poderia ser panfletário, fácil, óbvio.
Mas ao mesmo tempo, Luis Vera toma partido, opina e procura para tanto, se não a objetividade, ao menos a imparcialidade. Focaliza não só o problema, como também reconhece-o. E o que é mais importante, reconhece que é preciso achar uma solução e as que já foram propostas até agora não se mostraram efetivas.
Em relação a este tema, tinha dito antes que é importante também interpretar as fotos a partir do ponto de vista do seu título “Nem opressores nem servos”, palavras que foram pegas do estribilho do Hino Nacional paraguaio cujo texto completo diz: “Nem opressores nem servos alentam/onde reinam união e igualdade”. É assim que Luis Vera, com essas imagens, quer dar cumprimento ao mandato de um país no qual não existam ‘nem opressores nem servos’, embora suas imagens põem em evidência a presença de ‘servos’ e de maneira indireta alude aos ‘opressores’ cuja ação política –ou falta de ação política em outros casos– tem-nos conduzido a tal situação.
Até aqui, é o problema ideológico que expõem tais imagens. Quanto aos problemas estéticos, penso que Luis Vera, até hoje, não apresentou nenhuma coleção tão homogênea, tão ampla, tão meditada, tão estritamente concebida como é essa de “Nem opressores nem servos”.
Em suas tomadas não há sensacionalismo –tão fácil de cair-se em um tema como este–, senão um profundo respeito pelo ser humano. Há um amor solidário com os que se vêem despojados de tudo, até mesmo do direito de tomar decisões que refiram-se a suas próprias vidas e seus próprios destinos. Por isso suas imagens são comovedoras.
O preto e branco aporta sua quota de dramatismo. Qualquer toque de cor poderia ter corrido o risco de chamar a atenção sobre a paisagem. Qualquer toque de cor poderia ter sublinhado um fato anedótico fazendo perder de vista o essencial. A isso há que lhe adicionar as luzes: o sol filtrando-se pelas fendas das tábuas que servem de parede às habitações muito precárias. Ou as aberturas nos tetos de palha.
Desta forma, ficam as imagens desprovidas de todo enfeite supérfluo para chegar ao essencial, à imagem pura, ao que tem sido eternamente a fotografia: jogo de luzes e de sombras, de volumes, de texturas, de espaços inquietantemente abertos e de espaços opressivamente fechados. E no meio: a aventura do homem, a que resgata a arte, a que nunca poderá ser superada nem substituída pela técnica.
O que é ainda mais significativo é que somente pode-se alcançar tanta liberdade expressiva por parte de quem não tem se deixado converter em servos e por isso são capazes de denunciar com inocente valentia e eficácia o acionar dos opressores.

Jesús Ruiz Nestosa
Tradução: Anai Vera

Luis Vera

O fotojornalista Luis Vera, nascido em Asunção, Paraguai, faz fotografia documental para organizações como a Cruz Vermelha Suíça, UNICEF, Plan International, Avina e outras. Trabalhou como editor chefe de fotografia em jornais do Paraguai e foi colaborador do Clarín e El Gráfico (Argentina), Las Últimas Noticias (Chile) e Veja (Brasil), das agências Associated Press e France Presse. Também tem publicações na Alemanha e Suíça. Participou, como assistente de produção e fotógrafo, da realização de um documentário sobre cultura indígena do Paraguai com a Trans-Globe da Espanha. Atualmente realiza um trabalho de documentação em comunidades indígenas da Bolívia, para a Cruz Vermelha Suíça e COSUDE, Cooperação Suíça para o Desenvolvimento. Desde 1989 realiza exposições de seu trabalho artístico em seu país e na Argentina, Brasil, Uruguai, EUA, Espanha e Suíça. É professor universitário de Fotojornalismo e Teoria da Imagem, e atualmente cursa mestrado em Antropologia Social. Participa frequentemente de seminários, workshops e oficinas no Paraguai, Argentina, Brasil e EUA, em busca de um constante aprimoramento de seu trabalho, que une a precisão de jornalista experiente à sensibilidade de um artista que perscruta a imagem do povo sul-americano.  O trabalho que apresenta, “ni opresores ni siervos”, uma visão da realidade camponesa paraguaia, foi realizado com o apoio da Cruz Vermelha Suíça e Tesai Reka Paraguay.

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