Exposição: A vida não é filme

1ª Temporada de Exposições 2006
12 de maio de 2006 à 30 de junho de 2006
Exposição: A vida não é filme
Artista: Priscilla Pessoa

 

A VIDA NÃO É FILME

A formação de observadores competentes para lidar com as práticas intertextuais é uma das conseqüências do diálogo entre as artes, além de provocar a ampliação dos nossos contextos sociais. Fotografia, cinema e pintura, uma tríade da tradição modernista que se complementa a cada quadro, são o tema da mostra de Priscilla Paula.

Aqui, os cartazes dos filmes não interessam como modelo, como fonte figurativa para serem reconhecidos pelo espectador, pelo cinéfilo (como a própria artista). Os cartazes interessam como elementos de mediação de um confronto trágico entre ficção (o mundo ideal do escurinho do cinema?) e realidade. Desse confronto surge o olhar paródico de Priscilla Paula, que destrói pela figura o que a palavra anuncia, afirmando subliminarmente que “isto não é aquilo”, retirando da tela a possibilidade de sonhar e jogando-nos, por meio do humor, na crueldade do mundo real.

A manutenção dos títulos na língua original resgata a história do cinema até o ponto de remeter a memória para a contraposição da figura – veja-se principalmente The king and I e Cet obscur objet du désir, ou, ainda, o auto-retrato que ilustra Romeo and Juliet.

O título pertence ao filme, mas não é, em primeira mão, legenda da figura. Na verdade, a figura desilustra o título e ridiculariza a lógica glamourosa ou intelectual do cinema, seja de Hollywood ou não. A atmosfera nostálgica que envolve a exposição, recuperando pela memória a história de um certo cinema, se junta à melancolia do sugestivo título da mostra: a vida não é filme.

Além de não serem uma reprodução dos cartazes dos filmes, os quadros deixam entrever o percurso da pintura, suas sobreposições, correções, ‘imperfeições’ que fazem parte dessa visualidade contemporânea, que não se pauta pelo desejo de agradar ou de preencher expectativas de satisfação pura.

O cartaz que antecede e chama o espectador/observador para o filme tem, nesta mostra, o papel de remeter a inúmeros referenciais da cultura de massa obrigando-o a se conscientizar dessas remissões e, quem sabe, nesse caso, lamentar o fato de que a vida não é filme. Mas bem que poderia ser…

Maria Adélia Menegazzo.
Crítica de arte e professora da UFMS.
Novembro/2005

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